Muitas pessoas acreditam que a instalação de um Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA), o popular para-raios, é suficiente para proteger uma edificação e tudo o que há dentro dela contra os efeitos dos raios. No entanto, essa é uma visão incompleta. O SPDA é projetado para proteger a estrutura da edificação contra os efeitos diretos de uma descarga atmosférica, ou seja, o impacto do raio em si. Mas e quanto aos equipamentos eletrônicos e elétricos que são tão presentes em nosso dia a dia? É aí que entram os Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS), o complemento essencial do SPDA. Este artigo explica o que são os DPS, por que eles são indispensáveis e como eles trabalham em conjunto com o SPDA para oferecer uma proteção completa.
O Que São Surtos Elétricos?
Surtos elétricos, ou sobretensões transitórias, são picos de tensão de curta duração que ocorrem na rede elétrica. Eles podem ser causados por:
•Descargas Atmosféricas: Mesmo que um raio não atinja diretamente a edificação, sua queda nas proximidades pode induzir surtos de alta intensidade nas redes de energia, telefonia e dados.
•Manobras na Rede Elétrica: O ligamento e desligamento de grandes cargas pela concessionária de energia pode gerar surtos na rede.
•Operação de Máquinas: O acionamento de motores, transformadores e outros equipamentos industriais também pode causar surtos internos na instalação.
Esses surtos, mesmo que durem apenas microssegundos, podem danificar ou destruir equipamentos eletrônicos sensíveis, como computadores, televisores, modems, sistemas de segurança, eletrodomésticos e equipamentos industriais.
A Função dos DPS
Os Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS) são projetados para detectar esses picos de tensão e desviar a corrente do surto para o sistema de aterramento, protegendo os equipamentos conectados à rede. Eles funcionam como uma espécie de “válvula de alívio” para a tensão elétrica. Em condições normais, o DPS se comporta como um circuito aberto. Quando um surto de tensão ocorre, o DPS atua em nanossegundos, tornando-se um caminho de baixa impedância para a terra e desviando a corrente do surto, limitando a tensão que chega aos equipamentos.
Por Que o SPDA Sozinho Não é Suficiente?
O SPDA protege a estrutura da edificação contra os danos físicos de um raio (incêndios, danos estruturais), mas não impede que os surtos elétricos induzidos pela descarga atmosférica entrem na instalação através das redes de energia, telefonia, TV a cabo, etc. É por isso que a NBR 5419 e a NBR 5410 (norma de instalações elétricas de baixa tensão) exigem a instalação de DPS como parte de um sistema de proteção completo. O SPDA e os DPS são, portanto, complementares e indispensáveis um ao outro.
As Classes de DPS e Sua Aplicação
Os DPS são classificados de acordo com sua capacidade de suportar a corrente do surto e sua localização na instalação:
•Classe I: São os DPS de maior capacidade, projetados para proteger contra os efeitos de descargas atmosféricas diretas. Devem ser instalados no ponto de entrada de energia da edificação, em quadros de distribuição principais, especialmente em locais com SPDA externo.
•Classe II: São os DPS mais comuns, projetados para proteger contra surtos induzidos por descargas indiretas ou manobras na rede. São instalados nos quadros de distribuição secundários ou diretamente nas tomadas.
•Classe III: São os DPS de proteção fina, instalados o mais próximo possível dos equipamentos sensíveis que se deseja proteger, como computadores e equipamentos de áudio e vídeo. Geralmente são encontrados em filtros de linha, estabilizadores e no-breaks.
A Importância da Coordenação entre as Classes de DPS
Para uma proteção eficaz, é fundamental que haja uma coordenação entre as diferentes classes de DPS. A ideia é que a proteção seja feita em cascata: o DPS Classe I, na entrada, drena a maior parte da energia do surto, e os DPS Classe II e III, instalados a jusante, atuam sobre a tensão residual, garantindo que a tensão que chega aos equipamentos esteja dentro de limites seguros. A ausência de uma classe ou a instalação inadequada pode comprometer todo o sistema de proteção.
Em um mundo cada vez mais dependente da tecnologia, a proteção dos equipamentos eletrônicos contra surtos elétricos é tão importante quanto a proteção da estrutura da edificação contra os raios. O SPDA e os DPS são tecnologias complementares que, quando instaladas e coordenadas corretamente, oferecem uma proteção completa e eficaz contra todos os efeitos das descargas atmosféricas. Investir em um sistema de proteção que inclua tanto o SPDA quanto os DPS não é um luxo, mas uma necessidade para garantir a segurança, a continuidade das operações e a longevidade dos seus equipamentos. Lembre-se: um raio pode não cair duas vezes no mesmo lugar, mas um surto pode danificar seus equipamentos a qualquer momento.


